Evidências interculturais para a genética da homossexualidade

Há muito tempo o público se interessa por saber as razões pelas quais as pessoas são homo, hetero ou bissexuais. De fato, a pesquisa sobre orientação sexual oferece uma janela poderosa para entender a sexualidade humana. A revista científica Archives of Sexual Behavior publicou recentemente uma edição dedicada à pesquisa nessa área, intitulada de “O Quebra-Cabeças da Orientação Sexual”. Um estudo dos estudos apresentados na edição, conduzido por cientistas da Universidade de Lethbridge em Alberta, no Canadá, fornece fortes evidências interculturais de que fatores genéticos comuns estão por trás da preferência sexual, em homens, por pessoas do mesmo sexo.


No sul do México, indivíduos biologicamente masculinos que são atraídos sexualmente por homens são conhecidos como muxes. Eles são reconhecidos como um terceiro gênero: muxe nguiiu tendem a ter aparência e comportamento masculinos, enquanto muxe gunaa são mais femininos. Na cultura ocidental, seriam considerados homens gays e mulheres transgênero, respectivamente,

Diversos correlatos de androfilia masculina - termo que identifica pessoas que são biologicamente homens e sexualmente atraídos por homens - aparecem em diferentes culturas, sugerindo um alicerce biológico comum entre eles. Por exemplo, o efeito da ordem de nascimento fraterna - fenômeno pelo qual se prediz a androfilia masculina quando se tem um número maior de irmãos biológicos mais velhos - é evidente tanto na cultura ocidental quanto na samoana.

Na sociedade ocidental, homens homossexuais, em comparação aos heterossexuais, tendem a apresentar níveis mais elevados de ansiedade de separação - a angústia resultante da separação das maiores figuras de apego, como o principal cuidador ou membros próximos da família. Pesquisas em Samoa demonstraram de forma semelhante que os indivíduos do terceiro gênero fa`afafine - femininos na aparência, biologicamente masculinos e atraídos por homens - também apresentam uma maior ansiedade de separação na infância quando comparados aos homens samoanos heterossexuais. Assim, se um padrão semelhante em relação à ansiedade de separação fosse encontrado em uma terceira cultura diferente - no caso, a região de Istmo, em Oaxaca, no México - isso aumentaria as evidências de que a androfilia masculina tem bases biológicas.

O atual estudo incluiu 141 mulheres heterossexuais, 135 homens heterossexuais e 178 muxes (61 muxe nguiiu e 117 muxe gunaa). Os participantes do estudo foram entrevistados através de um questionário que perguntava sobre ansiedade de separação; mais especificamente, angústias e preocupações que vivenciaram, quando crianças, em relação a serem separados de uma figura paterna. Eles avaliaram o quão real era cada uma das questões quando tinham entre 6 e 12 anos de idade.

Muxes mostraram níveis mais elevados de ansiedade por separação na infância quando comparados com homens heterossexuais, similar ao que foi observado em homens gays no Canadá e nos fa’afafine em Samoa. Tambem não houve diferenca alguma em níveis de ansiedade entre mulheres e muxe nguiiu ou muxe gunaa, ou entre os dois tipos de muxes.

Quando consideramos possíveis explicações para esses resultados, os mecanismos sociais são improváveis, pois pesquisas anteriores mostraram que a ansiedade é hereditária e os pais tendem a agir em resposta aos traços das crianças e comportamentos, não o contrário. Mecanismos biológicos, no entanto, oferecem uma conta mais convincente. Por exemplo, acredita-se que a exposição a níveis típicos femininos de hormônios esteróides sexuais no ambiente pré-natal "feminiza" regiões do cérebro masculino relacionadas à orientação sexual, influenciando, assim, o apego e a ansiedade.

Além disso, estudos em genética molecular mostraram que a Xq28, uma região localizada na ponta do cromossomo X, está envolvida tanto na expressão da ansiedade quanto na androfilia masculina. Isso sugere que fatores genéticos comuns podem estar por trás da expressão de ambos. Estudos com gêmeos também apontam para explicações genéticas como a força base para a preferência por parceiros do mesmo sexo em homens e para o neuroticismo, um traço de personalidade que é comparável à ansiedade.

Essas descobertas sugerem que ansiedade por separação na infância pode ser um correlativo culturalmente universal da androfilia em homens. Isso possui implicações importantes no nosso entendimento das condições de saúde mental em crianças, já que níveis subclínicos de ansiedade por separação, quando entrelaçados com androfilia masculina, podem representar uma parte típica do curso de desenvolvimento da vida.

Na presente situação, a pesquisa sobre orientação sexual continuará a despertar interesse e controvérsia generalizada num futuro próximo, pois ela tem o potencial de ser usada - para o bem ou para o mal - para defender questões sociopolíticas particulares. A aceitação moral da homossexualidade, muitas vezes, dependia da idéia de que os desejos por alguém do mesmo sexo são inatos, imutáveis e, portanto, não são uma escolha. Isso fica claro quando pensamos em como as crenças anteriores em torno da homossexualidade foram usadas para justificar tentativas (agora desacreditadas) de mudar esses desejos.

As semelhanças interculturais evidenciadas pelo presente estudo oferecem mais uma prova de que ser gay é algo genético - o que, por si só, já é uma descoberta interessante. Mas nós, como sociedade, devemos desafiar a noção de que as orientações sexuais devem ser não-volitivas para serem socialmente aceitáveis ou estarem a salvo de cotestações. A etiologia da homossexualidade, biológica ou não, não deve ter qualquer influência sobre o direito dos indivíduos gays à igualdade.

Debra W. SohHá muito tempo o público se interessa por saber as razões pelas quais as pessoas são homo, hetero ou bissexuais. De fato, a pesquisa sobre orientação sexual oferece uma janela poderosa para entender a sexualidade humana. A revista científica Archives of Sexual Behavior publicou recentemente uma edição dedicada à pesquisa nessa área, intitulada de “O Quebra-Cabeças da Orientação Sexual”. Um estudo dos estudos apresentados na edição, conduzido por cientistas da Universidade de Lethbridge em Alberta, no Canadá, fornece fortes evidências interculturais de que fatores genéticos comuns estão por trás da preferência sexual, em homens, por pessoas do mesmo sexo.

No sul do México, indivíduos biologicamente masculinos que são atraídos sexualmente por homens são conhecidos como muxes. Eles são reconhecidos como um terceiro gênero: muxe nguiiu tendem a ter aparência e comportamento masculinos, enquanto muxe gunaa são mais femininos. Na cultura ocidental, seriam considerados homens gays e mulheres transgênero, respectivamente,

Diversos correlatos de androfilia masculina - termo que identifica pessoas que são biologicamente homens e sexualmente atraídos por homens - aparecem em diferentes culturas, sugerindo um alicerce biológico comum entre eles. Por exemplo, o efeito da ordem de nascimento fraterna - fenômeno pelo qual se prediz a androfilia masculina quando se tem um número maior de irmãos biológicos mais velhos - é evidente tanto na cultura ocidental quanto na samoana.

Na sociedade ocidental, homens homossexuais, em comparação aos heterossexuais, tendem a apresentar níveis mais elevados de ansiedade de separação - a angústia resultante da separação das maiores figuras de apego, como o principal cuidador ou membros próximos da família. Pesquisas em Samoa demonstraram de forma semelhante que os indivíduos do terceiro gênero fa`afafine - femininos na aparência, biologicamente masculinos e atraídos por homens - também apresentam uma maior ansiedade de separação na infância quando comparados aos homens samoanos heterossexuais. Assim, se um padrão semelhante em relação à ansiedade de separação fosse encontrado em uma terceira cultura diferente - no caso, a região de Istmo, em Oaxaca, no México - isso aumentaria as evidências de que a androfilia masculina tem bases biológicas.

O atual estudo incluiu 141 mulheres heterossexuais, 135 homens heterossexuais e 178 muxes (61 muxe nguiiu e 117 muxe gunaa). Os participantes do estudo foram entrevistados através de um questionário que perguntava sobre ansiedade de separação; mais especificamente, angústias e preocupações que vivenciaram, quando crianças, em relação a serem separados de uma figura paterna. Eles avaliaram o quão real era cada uma das questões quando tinham entre 6 e 12 anos de idade.

Muxes mostraram níveis mais elevados de ansiedade por separação na infância quando comparados com homens heterossexuais, similar ao que foi observado em homens gays no Canadá e nos fa’afafine em Samoa. Tambem não houve diferenca alguma em níveis de ansiedade entre mulheres e muxe nguiiu ou muxe gunaa, ou entre os dois tipos de muxes.

Quando consideramos possíveis explicações para esses resultados, os mecanismos sociais são improváveis, pois pesquisas anteriores mostraram que a ansiedade é hereditária e os pais tendem a agir em resposta aos traços das crianças e comportamentos, não o contrário. Mecanismos biológicos, no entanto, oferecem uma conta mais convincente. Por exemplo, acredita-se que a exposição a níveis típicos femininos de hormônios esteróides sexuais no ambiente pré-natal "feminiza" regiões do cérebro masculino relacionadas à orientação sexual, influenciando, assim, o apego e a ansiedade.

Além disso, estudos em genética molecular mostraram que a Xq28, uma região localizada na ponta do cromossomo X, está envolvida tanto na expressão da ansiedade quanto na androfilia masculina. Isso sugere que fatores genéticos comuns podem estar por trás da expressão de ambos. Estudos com gêmeos também apontam para explicações genéticas como a força base para a preferência por parceiros do mesmo sexo em homens e para o neuroticismo, um traço de personalidade que é comparável à ansiedade.

Essas descobertas sugerem que ansiedade por separação na infância pode ser um correlativo culturalmente universal da androfilia em homens. Isso possui implicações importantes no nosso entendimento das condições de saúde mental em crianças, já que níveis subclínicos de ansiedade por separação, quando entrelaçados com androfilia masculina, podem representar uma parte típica do curso de desenvolvimento da vida.

Na presente situação, a pesquisa sobre orientação sexual continuará a despertar interesse e controvérsia generalizada num futuro próximo, pois ela tem o potencial de ser usada - para o bem ou para o mal - para defender questões sociopolíticas particulares. A aceitação moral da homossexualidade, muitas vezes, dependia da idéia de que os desejos por alguém do mesmo sexo são inatos, imutáveis e, portanto, não são uma escolha. Isso fica claro quando pensamos em como as crenças anteriores em torno da homossexualidade foram usadas para justificar tentativas (agora desacreditadas) de mudar esses desejos.

As semelhanças interculturais evidenciadas pelo presente estudo oferecem mais uma prova de que ser gay é algo genético - o que, por si só, já é uma descoberta interessante. Mas nós, como sociedade, devemos desafiar a noção de que as orientações sexuais devem ser não-volitivas para serem socialmente aceitáveis ou estarem a salvo de cotestações. A etiologia da homossexualidade, biológica ou não, não deve ter qualquer influência sobre o direito dos indivíduos gays à igualdade.

Debra W. Soh

Fonte:http://www2.uol.com.br/sciam/noticias/evidencias_interculturais_para_a_genetica_da_homossexualidade.html